Papa Francisco admite uso de contraceptivos contra o vírus da zika

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O papa Francisco admitiu nesta quinta-feira (18) que, em meio ao surto do vírus da zika no mundo, mulheres poderiam recorrer ao uso de contraceptivos. Ele deixou claro que existe uma diferença moral entre abortar e prevenir uma gravidez.

Apesar de a Igreja rejeitar historicamente métodos contraceptivos, Francisco afirmou que “evitar a gravidez não é um mal absoluto”.

O vírus da zika em gestantes tem sido associado por estudos ao aumento dos casos de microcefalia (má-formação no cérebro de bebês).

O papa não especificou os contraceptivos a que se referia em sua declaração -como camisinha, pílula ou DIU.

Ele foi questionado a respeito do aborto e de recomendações para que mulheres evitem a maternidade diante do problema de saúde pública.

“O aborto não é um pecado menor, é um crime”, respondeu Francisco, em entrevista no avião em que retornava para Roma depois de seis dias no México. “É um mal em si mesmo. É o que a máfia faz. É um mal absoluto”, disse.

Um braço da ONU (Organização das Nações Unidas) ligado aos direitos humanos já defendeu recentemente que, diante do avanço da zika e da alta de casos de microcefalia, os países deveriam garantir serviços de aborto legal.

Atualmente, a legislação brasileira permite o aborto somente em casos de estupro, risco de vida da mulher e quando o feto é anencéfalo.

Além da transmissão do vírus da zika pelo Aedes aegypti, já houve relato nos EUA de contágio por relação sexual.

O papa Francisco pediu que não se confundisse o mal de evitar a gravidez, por si só, com o aborto, e citou como precedente um episódio pouco conhecido do papado de Paulo 6º (1963-1978).

Durante a guerra no Congo belga, na década de 1960, Paulo 6º teria autorizado que freiras utilizassem anticoncepcionais porque poderiam ser vítimas de estupro.

“Evitar a gravidez não é um mal absoluto. Em certos casos, como neste [do vírus da zika], como no do abençoado Paulo 6º, isso está claro”, afirmou o papa Francisco.

No início de fevereiro, a OMS (Organização Mundial de Saúde) declarou emergência internacional em saúde pública devido ao aumento de casos de microcefalia e doenças neurológicas e à suspeita de ligação deles com a zika.

O problema é particularmente preocupante nas Américas. Segundo a OMS, há casos de infecção em 28 países e territórios da região.

No Brasil, há 508 casos de microcefalia já confirmados desde outubro e 3.935 investigados, segundo o governo.

Autoridades de alguns governos da região, como Colômbia e El Salvador, têm aconselhado inclusive que as mulheres evitem a gravidez nos próximos meses.

Nesta quinta, Francisco ainda exortou os médicos a “fazerem tudo para encontrar vacinas contra os mosquitos que transmitem essa doença”.

“O papa Francisco trabalha com a mentalidade de um padre dentro do confessionário. Se no momento é alternativa para as pessoas terem tranquilidade de espírito, então é perdoável que um casal não siga um princípio e use métodos anticoncepcionais artificiais. Jamais seria perdoável fazer o aborto”, afirma Francisco Borba, coordenador do núcleo Fé e Cultura da PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo.

USO DE PRESERVATIVOS

Em 2010, o papa Bento 16 causou polêmica ao afirmar que o uso de preservativos poderia ser tolerado, “com a intenção de reduzir o risco de infecção [pelo vírus da Aids], em um primeiro passo em um movimento rumo a um modo diferente, um modo mais humano, de viver a sexualidade”.

A declaração foi dada ao jornalista católico alemão Peter Seewald, autor do livro “Light of the World: The Pope, the Church and the Signs of the Times” (“Luz do Mundo: O Papa, a Igreja e os Sinais dos Tempos”, em tradução livre, lançado em 2010).

Bento 16 abordou o tema após ser questionado por Seewald sobre uma afirmação que deu em visita à África, em 2009. Na época, o então papa afirmou, em Camarões, que “a Aids não poderá ser superada por meio da distribuição de camisinhas, o que inclusive agrava os problemas”.

Após o lançamento do livro, o Vaticano afirmou que as palavras de Bento 16 foram instrumentalizadas e difundidas incorretamente. “A ideia que das palavras de Bento 16 se possa deduzir que em alguns casos seja lícito recorrer ao uso do preservativo para evitar gestações indesejadas é totalmente arbitrária e não responde nem a suas palavras nem a seu pensamento”, esclareceu a Congregação para a Doutrina da Fé (órgão do Vaticano).

Folha

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